“Devemos recordar que todas as nossas ideias provisórias em psicologia provavelmente um dia estarão baseadas em um substrato orgânico.
Sigmund Freud, ‘Sobre o Narcisismo’”
“Remédios psiquiátricos não tratam doenças. Talvez você nunca tenha sido informado sobre isso.”
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A psiquiatria difere-se de muitas áreas médicas no modo que devemos avaliar o adoecimento de nossos pacientes. Ainda não conseguimos encontrar um fator patológico causal e definitivo para diagnóstico, como alterações em uma radiografia de fratura para um ortopedista ou ultrassonografia para cálculos na vesícula biliar. Nós psiquiatras temos que avaliar toda a história e contexto do paciente (família, religião, história de vida, fatores genéticos, uso de drogas, estado da civilização, exame do estado psíquico) para chegar ao quadro que justifica aquele choro, delírio, ou euforia. Ainda não temos a radiografia para mostrar a fratura ou cateterismo indicando baixo fluxo sanguíneo nas coronárias. A ausência de um marcador biológico específico capaz de confirmar o diagnóstico, faz com que algumas pessoas questionem a própria existência e sentido da psiquiatria. Esse raciocínio pode até ser sedutor, porém está equivocado.
Já existem vários avanços na ciência atual, mesmo no campo da saúde mental, como: neuroimagem funcional, genética, eletroencefalograma, PET-CT, dentre outros fatore indicativos de alterações comuns e padrões nos quadros psiquiátricos mais típicos, como loucura maníaco depressiva ou as esquizofrenias. Já sabemos diagnosticar, estadiar e tratar esses quadros, entendendo sua origem psicofenomenolôgica, melhorando substancialmente o prognóstico e qualidade de vida dos nossos pacientes.
Sigmund Freud e Karl Jaspers ampliaram muito a compreensão da mente e da psicopatologia, mesmo assim, mantiveram a ideia de que por mais complexa e rica seja a história e achados psicológicos, deveria existir algum substrato cerebral subjacente para as doenças da mente. Causa estranheza que, mesmo hoje, existem pessoas, inclusive entre profissionais da saúde mental, que neguem a legitimidade da psiquiatria e a efetividade de muitos de seus tratamentos.
Saímos das internações vitalícias em manicômios, banhos gelados, lobotomias, dentre outros tratamentos hoje vistos como violentos e estigmatizantes, para tratamentos cada vez mais toleráveis, eficazes e seguros. Quando indicados baseado em um raciocínio clínico bem apurado, permitem paciente saia de um estado patológico neurobiológico, como por exemplo a neuroinflamação presente na depressão, e tenha maior sucesso em seu tratamento psicológico, manejo social e familiar.
A luta antipsiquiatria surgiu na década de 1960 tendo como teóricos principais Thomas Szasz, R.D. Laing, e Franco Basaglia questionando a medicalização e internações psiquiátricas. Alguns chegam a questionar a própria existência dos diagnósticos psiquiátricos vendo os mesmos como um construto social ao invés de realidade médica. Esse corrente trouxe vários avanços no cuidado dos pacientes psiquiátricos, permitindo internações menos prolongadas, busca pela reintegração dos pacientes na sociedade e desenvolvimento de tratamento mais humanizado e menos invasivo.
As ideias antipsiquiatria costumam ganhar com facilidade notícias de jornais, posts virais em redes sociais. Entender que o estado da civilização(operacionalizada e cada vez mais produtivista) e aspectos sociais do paciente implicam no diagnóstico de nossos pacientes é essencial. Porém, invalidar a psiquiatria pode ser prejudicial as pessoas que realmente precisam desses cuidados. É necessário defender a nossa prática médica que quando feita com escuta, diagnóstico e tratamento adequados muda prognóstico e qualidade de vida.
René Descartes “Cogito, ergo, sum”

